O turismo com propósito só se consolida quando assumimos a responsabilidade de cuidar dos territórios que visitamos e planejamos. Diante da urgência climática global, olhar para o impacto ambiental das nossas próprias operações é um compromisso ético indispensável para o setor privado, especialmente no universo do turismo, onde biomas protegidos são essenciais para a atividade das empresas.

Transformar o turismo a partir de modelos mais sustentáveis, regenerativos, participativos e responsáveis do ponto de vista ecológico é o primeiro passo para quem quer enfrentar esse desafio. 

Nesse contexto existem muitas discussões em curso sobre como podemos reduzir nossas emissões, estimulando o turismo regional, incentivando o uso de meios de transporte de menor impacto, promovendo o consumo de alimentos de produtores locais para encurtar a viagem da comida e aplicando tecnologias de eficiência energética na hotelaria. Além disso, estruturar roteiros que valorizem a permanência prolongada dos viajantes nos destinos, reduzindo a necessidade de muitos deslocamentos aéreos.

Quando a emissão é indispensável, porém, a neutralização de carbono se torna uma solução essencial. Esse é um processo transparente que transforma dados operacionais em apoio direto à conservação da biodiversidade e ao desenvolvimento socioambiental. 

Em 2025 passamos pela primeira vez pelo processo de neutralização de carbono da nossa empresa. “Foi uma grande conquista para nós, afinal essa ação traduz na prática parte dos nossos valores e propostas para o setor e para o planeta”, afirma Gláucia Oliveira, sócia da Turismo 360.

A seguir, compartilhamos os aprendizados e informações que absorvemos durante esse processo:

Como é feito o cálculo das emissões?

O ponto de partida para a neutralização é o Inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE). Esse cálculo mapeia a pegada de carbono da empresa com base em metodologias globais consagradas. Para que o cálculo seja preciso, o mapeamento é dividido em três categorias principais.

A Categoria 1 engloba as emissões diretas de fontes que pertencem ou são controladas pela própria empresa, como o combustível da frota de veículos. A Categoria 2 mede as emissões indiretas ligadas ao consumo de energia elétrica adquirida para as instalações. Já a Categoria 3 cobre outras emissões indiretas da cadeia de valor, o que inclui as viagens de negócios (como voos de equipes para a execução de projetos), deslocamento de colaboradores, transporte de produtos e gestão de resíduos.

Para alimentar os fatores de emissão oficiais, as organizações precisam fornecer às consultorias especializadas documentos como contas de energia elétrica, notas fiscais de combustíveis, relatórios de viagens corporativas com quilometragens e trechos voados, dados de pernoites em hotéis e registros de descarte de resíduos.

Realizar esse cálculo exige rigor técnico e conhecimento das constantes atualizações das tabelas de fatores de emissão brasileiras e globais. Por isso, existem empresas especializadas que realizam auditorias e inventários detalhados, garantindo a legitimidade científica do processo antes da emissão de qualquer selo de neutralização.

O inventário de carbono deve ser realizado anualmente. As emissões acumuladas ao longo de um ano são consolidadas e calculadas no ano seguinte. A compensação correspondente deve ocorrer logo após a conclusão desse relatório. Trata-se de um ciclo contínuo: monitorar ano a ano permite avaliar se as metas internas de redução estão sendo atingidas e garante que a neutralização seja um compromisso financeiro e ecológico recorrente.

O Cenário Nacional: O que mais emite carbono no Brasil?

Diferente de nações altamente industrializadas do Hemisfério Norte, onde a queima de combustíveis fósseis para energia lidera as emissões, o perfil brasileiro é único. No contexto nacional geral, o uso da terra (que envolve atividades como a agropecuária e a conversão de florestas em pastagens) e o desmatamento lideram o ranking. 

No entanto, quando olhamos especificamente para as atividades das empresas brasileiras no setor de serviços, comércio e turismo, as maiores fontes de impacto estão ligadas a três pilares principais.

O primeiro é o setor de transporte e logística corporativa, que depende de combustíveis fósseis para deslocamentos e viagens. O segundo é o uso de energia elétrica, pois, mesmo com uma matriz majoritariamente renovável, o país necessita do acionamento de usinas termelétricas poluentes em determinadas épocas do ano. Por fim, a geração de resíduos nas instalações das empresas também tem impacto, porque o descarte inadequado de lixo orgânico em aterros gera grandes volumes de gás metano.

Tipos de projetos para neutralizar Carbono

Uma vez quantificadas as toneladas de dióxido de carbono equivalente emitidas, a empresa adquire créditos de carbono correspondentes para neutralizar o saldo. Um crédito representa uma tonelada de carbono que deixou de ser emitida ou que foi capturada da atmosfera. As empresas podem escolher diferentes categorias de projetos certificados por agências globais independentes.

Os Projetos REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) são focados em manter florestas nativas em pé. Em vez de plantar novas árvores, esses projetos financiam a vigilância de áreas de preservação contra o desmatamento ilegal e incêndios florestais, além de gerarem renda e autonomia para as comunidades locais que guardam o território. É o caso do Projeto REDD+ Serra do Amolar, que protege santuários ecológicos vitais no Pantanal. Essa foi a iniciativa escolhida pela Turismo 360 para a neutralização das emissões de 2025.

Os Projetos de Reflorestamento (ARR) são iniciativas voltadas para o plantio de árvores nativas em áreas historicamente degradadas. A neutralização ocorre por meio do sequestro de carbono, processo no qual as árvores capturam o CO2 da atmosfera através da fotossíntese à medida que crescem.

Os Projetos de Energia Renovável e Eficiência Energética financiam a substituição de fontes fósseis por usinas eólicas, solares ou de biomassa sustentável em comunidades isoladas ou indústrias, evitando que o carbono seja gerado na produção de energia.

Os Projetos de Tratamento de Resíduos e Biomassa substituem combustíveis poluentes por resíduos agrícolas, como casca de arroz ou bagaço de cana, em processos térmicos industriais, ou capturam o metano de aterros sanitários para a geração de energia limpa.

O que a ciência diz sobre a Compensação de Carbono?

Estudos climáticos de instituições de referência reforçam que a prioridade absoluta de qualquer organização deve ser sempre a redução direta de suas emissões, por meio de eficiência tecnológica, transição energética e mudanças estruturais na operação. A compensação não substitui a mitigação.

No entanto, a ciência climática também aponta que atingir o cenário de emissões líquidas zero será matematicamente impossível sem os mecanismos de mercado de carbono. Os relatórios indicam que as compensações são ferramentas de transição fundamentais. Elas direcionam recursos financeiros de forma ágil para a conservação de ecossistemas ameaçados que, de outra forma, poderiam desaparecer em poucos anos. 

Financiar projetos de conservação funciona como uma barreira de proteção indispensável enquanto a sociedade desenvolve tecnologias de descarbonização total para setores de difícil abatimento, como a aviação comercial.

A compensação de carbono, portanto, não deve ser uma licença para continuarmos emitindo, mas uma obrigação de agir para minimizar o impactos das emissões atuais. Afinal, proteger o planeta hoje é o único caminho para garantir que teremos um futuro para transformar amanhã. E nós já começamos.”