Por Marcela Pimenta
Chegar às Montanhas Capixabas é atravessar uma fronteira sensorial. Quem conhece o Espírito Santo apenas pelo mar descobre, de repente, outro estado. A região serrana oferece floresta preservada, neblina que abraça a estrada, trilhas embaladas pelo canto de aves raras e experiências que misturam a tradição de imigrantes, a hospitalidade do campo, a elaboração gastronômica de chefs e o cuidado com a natureza de anfitriões que amam a própria terra.
Foi nesse cenário que a Turismo 360 deu início ao Projeto Conexão Turismo Mata Atlântica e, confesso, com um sentimento raro de privilégio. Privilégio de trabalhar em um território autêntico, ainda pouco conhecido nacionalmente, mas de potencial surpreendente, que pudemos sentir na pele durante nossa última viagem de campo.

Experiências no destino misturam atividade de aventura, ecoturismo e vivências gastronômicas com um cenário especial.
Percorremos unidades de conservação, visitamos empreendimentos locais, participamos de encontros com empreendedores, caminhamos pela mata e conversamos longamente com quem vive e cuida desse bioma. Entre a trilha sonora das arapongas, o cheiro úmido da mata e um café especial ao pé da serra, fomos entendendo algo essencial: ali a natureza não é apenas recurso, mas parte intrínseca da vida das pessoas. É, por isso, que a comunidade aposta no turismo regenerativo. As viagens, de alguma forma, mantêm o território conservado e transformam a vida de moradores e turistas.
Essa imersão “com o pé na estrada e o olho no território” é central para nossa metodologia. É no encontro olho no olho que reconhecemos a singularidade de cada negócio, percebemos gargalos de integração e construímos soluções feitas sob medida. Cada destino é único e complexo; logo, cada estratégia precisa ser também.
O Conexão Turismo Mata Atlântica é uma iniciativa do Sebrae Espírito Santo, executada pela Turismo 360 com apoio do Montanhas Capixabas Convention & Visitors Bureau, e nasce com um propósito claro: fortalecer o turismo de natureza, qualificar experiências, ampliar acesso ao mercado e consolidar o posicionamento das Montanhas Capixabas como um território de referência em turismo regenerativo.
Um corredor vivo de floresta, aves e experiências
As Montanhas Capixabas — que abrangem 10 municípios da serra central — revelam um mosaico raro de Mata Atlântica preservada, especialmente nos municípios de Castelo, Domingos Martins e Vargem Alta, unidades de conservação interligadas e práticas de agroturismo que fazem da região o berço desse modelo no estado.
O que torna esse território especialmente potente é a existência de um corredor ecológico que conecta parques e reservas como o Parque Estadual da Pedra Azul, o Parque Estadual do Forno Grande, a Reserva Águia Branca, a Reserva Kaetés e o recém-criado Parque da Saíra-Apunhalada. Poucos lugares no Brasil reúnem, em área contínua, tantas unidades públicas e privadas trabalhando de forma articulada.
Essa conectividade não é apenas ambiental; ela molda o turismo. Trilhas de longo curso estão sendo estruturadas a partir de caminhos já existentes, respeitando a floresta e as comunidades. A observação de aves ganha força, sobretudo pela presença da saíra-apunhalada, espécie criticamente ameaçada e endêmica dessa região — um atrativo científico e turístico de relevância internacional. A lógica de escolher uma espécie como símbolo e propósito de conservação é simples: se as condições de vida de uma ave rara forem preservadas, as de inúmeras outras espécies também serão.
Mas não é só a biodiversidade que justifica a viagem. Lá, aventura e experiência se encontram: cafés especiais, morangos, mel, queijos artesanais, cervejarias e restaurantes criativos traduzem a floresta no prato. O agroturismo não é decoração — é modo de vida, renda e identidade.

Diversas unidades de conservação (públicas e privadas) integram um corredor vivo de Mata Atlântica.
Onde o projeto acontece: Castelo e Vargem Alta
As Montanhas Capixabas envolvem ao todo dez municípios, mas o Projeto Conexão Turismo Mata Atlântica será operacionalizado principalmente em Castelo e Vargem Alta — dois territórios complementares e estratégicos dentro desse corredor ecológico, com densa biodiversidade.
Em Vargem Alta, a Reserva Águia Branca apresenta a Mata Atlântica como uma sala de aula viva e laboratório de regeneração e contemplação da fauna. A unidade é um dos melhores destinos de observação de aves do Brasil. A atividade é conduzida com rigor científico e sensibilidade por guias especializados, que criam uma experiência imersiva.
Já o município de Castelo oferece perspectivas emocionantes da Floresta Atlântica, seja na torre de observação de 37 metros da Reserva Kaetés, ou na rampa de voo livre de Ubá, uma das mais propícias do Brasil. A partir dali, o destino se desenha em mirantes, cachoeiras e trilhas que revelam a Pedra Azul, o Pico do Forno Grande e os vales profundos da região. E, para além da natureza, a Gruta do Limoeiro, maior sítio arqueológico do Espírito Santo, acrescenta uma camada histórica que completa a vivência.
Vale destacar que a Reserva Kaetés é lar da saíra-apunhalada e oferece um programa de turismo científico para quem tem interesse em atuar como pesquisador por um período e participar do monitoramento da ave junto com os especialistas locais.
Nos dois municípios, o desafio é também oportunidade: estruturar experiências turísticas que valorizem quem já está no território, fortaleçam negócios locais e ampliem o acesso ao mercado sem comprometer o equilíbrio ambiental.
Nosso objetivo é que essa rota se consolide como referência dentro das Montanhas Capixabas, criando um modelo de desenvolvimento turístico que possa inspirar outros destinos no Brasil: mais integração, mais cooperação, mais natureza protegida e mais renda distribuída localmente.
Ao final dessa imersão, fica uma convicção: conhecer as Montanhas Capixabas é perceber, na prática, que o turismo pode ser ferramenta de cuidado com a floresta e com as pessoas.
