A recente mordida de um tubarão-lixa em Fernando de Noronha reacendeu um debate importante sobre como o crescimento do turismo de natureza tem impactado ambientes sensíveis e comunidades locais. O episódio, que viralizou nas redes sociais, terminou sem consequências graves para a turista, mas levantou questionamentos sobre práticas inadequadas e sobre a responsabilidade coletiva na preservação desses destinos.

Os últimos casos envolvendo tubarões em Noronha apontam possíveis falhas de conduta, como o uso de alimento para atrair animais selvagens, prática proibida por lei. Esse tipo de interação altera o comportamento natural das espécies e aumenta o risco de incidentes, com impactos que vão além do episódio em si. A imagem do destino, a atividade turística e a própria fauna local podem ser afetadas.

Fernando de Noronha é um dos principais destinos de mergulho autônomo do país.

Mas esse não é o único desafio do turismo ao ar livre. A popularização de trilhas e experiências em ambientes naturais também tem levado a comportamentos imprudentes, como visitas sem preparo técnico ou sem acompanhamento profissional. Essas situações frequentemente exigem operações de resgate complexas, com impactos ambientais e sociais relevantes, além de prejudicar a reputação de destinos turísticos e de operadores que atuam de forma responsável.

Sustentabilidade vai além da preservação ambiental

Para a consultora da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura, Abeta, Thaynara Siqueira, a discussão sobre mínimo impacto está diretamente ligada à compreensão do que é, de fato, sustentabilidade. “Quando a gente fala de sustentabilidade, ela vai muito além de plantar árvores. A sustentabilidade tem três pilares: social, ambiental e econômico. Para uma atividade ser sustentável, ela precisa trabalhar obrigatoriamente esses três pilares”, explica a especialista, que é bióloga e eproprietária da Mantiqueira Ecoturismo.

Ecoturismo no Mato Grosso do Sul. Foto: divulgação

Segundo Thaynara, o pilar social é frequentemente negligenciado, mas é essencial para o sucesso de qualquer atividade turística. “Minha atividade não é sustentável se ela não deixar impactos positivos na comunidade onde está inserida. Não adianta levar pouca gente se não há retorno para a comunidade local”, afirma.

Essa perspectiva amplia a ideia tradicional de conservação ambiental. Mais do que preservar paisagens, o turismo de natureza deve contribuir para a manutenção das culturas locais, dos saberes tradicionais e da economia das comunidades envolvidas. “Para continuar usando o recurso natural, eu preciso ajudar a garantir a sobrevivência da comunidade e do meio ambiente para as gerações futuras”, resume.

O mínimo impacto como caminho

Nesse contexto, o conceito de mínimo impacto surge como um caminho para alcançar a sustentabilidade. “O mínimo impacto são as ações para atingir um objetivo e esse objetivo é a sustentabilidade”, explica a consultora. Isso envolve desde o planejamento das atividades até o comportamento de turistas e operadores, sempre considerando os três pilares.

Outro ponto destacado por Thaynara é que o turismo deve priorizar as comunidades locais. “O destino turístico precisa ser bom primeiro para a comunidade, depois para o turista. Quando o foco é apenas o visitante, pode ocorrer gentrificação e a população local perde acesso aos benefícios do turismo”, alerta.

Foto: Divulgação

Ecoturismo exige educação ambiental

Além das boas práticas, existem também diretrizes técnicas importantes. A definição de ecoturismo adotada no Brasil, elaborada pela Embratur em 1994, estabelece que a atividade deve envolver conscientização e interpretação ambiental. Ou seja, não basta estar em meio à natureza. É preciso promover educação ambiental e experiências que ajudem o visitante a compreender o ambiente.

“Se não há conscientização e interpretação ambiental, não é ecoturismo”, reforça Thaynara. Por esse motivo, atividades desse tipo costumam ser realizadas em grupos menores, favorecendo a troca de conhecimento e a experiência educativa.
Outra referência importante é a norma ABNT NBR ISO 20611, que trata das boas práticas de sustentabilidade no turismo de aventura. A norma orienta empresas sobre planejamento, gestão de impactos e segurança, contribuindo para operações mais responsáveis.

Encontro de empresas associadas da Abeta. Foto: Fernando Veloso

Apesar disso, Thaynara destaca que não existe atualmente uma certificação específica de mínimo impacto ambiental para o turismo de natureza. “Hoje não existe uma certificação que garanta que uma atividade é de mínimo impacto. Existem iniciativas isoladas, mas nenhuma com peso técnico específico para o setor”, explica.

Diante desse cenário, o crescimento do turismo de natureza exige maior responsabilidade compartilhada entre empresas, turistas e gestores públicos. Valorizar operadores comprometidos com boas práticas e incentivar comportamentos conscientes são passos fundamentais para garantir que experiências em ambientes naturais continuem sendo possíveis no futuro.

Mais do que uma tendência, o turismo responsável é uma necessidade. Afinal, preservar paisagens, culturas e comunidades é também preservar a própria atividade turística. 🌿