Como planejar o turismo para os próximos 13 anos em um mundo marcado por mudanças climáticas, transformações tecnológicas e novos comportamentos de consumo? Uma das etapas do Plano Estratégico de Turismo do Maranhão 2040 é justamente a construção de cenários futuros, metodologia que ajuda a compreender tendências, identificar incertezas e orientar decisões mais estratégicas no presente. Neste artigo, o professor Elimar Pinheiro explica como funciona essa abordagem que está sendo aplicada no projeto.
Elimar Pinheiro do Nascimento
Qualquer plano de ação de médio ou longo prazo se depara com uma pergunta crucial: qual será o futuro do sistema sobre o qual estamos trabalhando. No caso, o turismo no Maranhão em 2040. Como desvendar o futuro? Como compreendê-lo?
O futuro é um espaço aberto a múltiplas possibilidades, moldado por múltiplos agentes sociais que agem em múltiplas dimensões: política, econômica, social, tecnológica e ambiental em constante transformação. Não é uma fatalidade, mas uma construção social moldada pelas inúmeras decisões dos agentes sociais.
A melhor metodologia de trabalho prospectivo, estudo sobre os futuros, é a de cenários, tendo em vista que o futuro não é um simples desdobrar do presente. O futuro é a moradia privilegiada da incerteza. Ele é o resultado de imbricações diversas e contraditórias. Ele tem sempre uma trajetória complexa, e não linear. Pois, o futuro é repleto de continuidades e descontinuidades, e de surgimento de novos eventos e processos, alguns dos quais inimagináveis. Portanto, os cenários não pretendem dizer como vai ser o futuro, mas apontar possíveis e prováveis futuros.
Hipóteses, não certezas: o que torna um cenário válido
Por isso, cenários prospectivos são hipóteses de futuro coerentes e plausíveis. Ser hipóteses significa que não são certezas, mas probabilidades. Porém, essas hipóteses devem ser coerentes, ou seja, as partes do sistema não podem ser incongruentes entre si. Não se pode imaginar uma taxa de crescimento econômico de 5% com investimentos de 2%. Finalmente, eles devem ser plausíveis, ou seja, eles devem ter alguma probabilidade de ocorrer. Eles são histórias de futuros alternativos.
Um número grande de cenários ou cenários muito parecidos entre si apenas confundem a análise e agregam pouco. Atrapalham mais do que ajudam para a tomada de decisão. Além disso, os cenários devem identificar as alternativas disponíveis, permitindo a formulação de políticas de interesse público que possam prevenir, evitar, minimizar, reorientar ou facilitar o processo em curso no futuro.
Por que planejar a longo prazo: da urgência à antecipação
O objetivo dos cenários não é prever com exatidão o que irá ocorrer, mas ampliar a compreensão sobre diferentes possibilidades e preparar o presente para lidar com desdobramentos diversos. Sua principal função é fazer os atores sociais refletirem sobre o futuro, especialmente sobre o que fazer se cada um dos cenários desenhados, de fato, se concretizar.
Os cenários tendem a criar um horizonte de reflexão que contempla as incertezas hoje reconhecidas. Por isso mesmo, eles são divergentes, abrindo um leque, o maior possível, para contemplar o conjunto das incertezas que temos sobre o futuro. Ou seja, os cenários devem ser visões contrastantes. Ao explorar futuros contrastantes, é possível identificar caminhos desejáveis, riscos a serem evitados e áreas de ação prioritária para construir o futuro almejado.
Em um contexto de crescente complexidade e incerteza, adotar uma visão prospectiva – capaz de antecipar descontinuidades e os possíveis impactos que eventos e decisões em curso podem gerar no futuro – torna-se essencial. A ausência de uma perspectiva de longo prazo compromete a capacidade de antecipação dos governantes e dificulta a implementação de políticas e investimentos estruturantes, que exigem mais tempo de maturação.
Pressionados por demandas imediatas, os gestores tendem a priorizar soluções de curto prazo, o que limita a promoção de transformações duradouras. É justamente a visão de longo prazo que permite orientar esforços estratégicos e alcançar saltos no desenvolvimento. O planejamento por antecipação aguça a sensibilidade dos decisores em relação ao ambiente externo, amplia a percepção sobre riscos e oportunidades, oferece referências para reavaliar estratégias e políticas vigentes e estimula a exploração de novas alternativas.
Por fim, cabe ressaltar que nenhum cenário ocorrerá na sua forma “pura” como desenhado. A realidade é sempre muito mais complexa do que é possível retratá-la em um conjunto de variáveis logicamente encadeadas. No futuro, a trajetória real, mais provável, caminhará por entre os cenários.
Da teoria à prática: como construir cenários coerentes e plausíveis

Foto: Embratur Sebrae
Construir cenários requer pelo menos o preenchimento de três condições essenciais. A primeira delas é ter uma metodologia clara e factível. A segunda é ter boas informações, dados robustos, consistentes e essenciais. A terceira é a sensibilidade sobre o espírito do tempo, e seus prováveis desdobramentos. Segue uma descrição sucinta da primeira condição: uma metodologia clara e factível.
Assim como cenários em profusão não ajudam o processo decisório, metodologias muito complicadas demandam mais custo, mais tempo, sem garantia de um resultado melhor. O maior desafio na elaboração de cenários é selecionar quais as variáveis mais relevantes, que consistem em condicionantes de futuro. Premissas são: sistema bem definido (turismo no Maranhão) e temporalidade claramente delimitada (2040).
A metodologia consagrada por Michel Godet e Peter Schwartz está baseada na identificação de variáveis de forte intensidade e pouca previsibilidade, denominadas de condicionantes de futuro, e nestas as incertezas críticas.
O olhar retrospectivo: mapeando continuidades e rupturas
O primeiro procedimento é um estudo retrospectivo do sistema para mapear quais as principais continuidades e descontinuidades, com suas principais dimensões definidas: demográfica, espacial, econômica, política, tecnológica, sociocultural e ambiental. O que de novo surgiu, e por quais razões em cada uma dessas dimensões. Continuidades e descontinuidades dependem da natureza da dimensão estudada. Tecnologias mudam com rapidez, e baixa previsibilidade, demografia é mais lenta nas mudanças, relativamente previsíveis. A política muda com mais rapidez que a cultura, e a economia mais do que o meio ambiente. Grande parte dessas mudanças ocorrem em um espaço definido, que acompanha as mudanças que nele ocorrem. A agricultura no País era destituída de tecnologias sofisticadas, e hoje é pura tecnologia. O espaço há pouco mais de meio século era minoritário no País, hoje é central, contendo cerca de 80% da população. O turismo era modesto, englobando percentual pequeno da demografia humana, hoje caminha para envolver metade da população do globo. Há um século o turismo era predominantemente de circuitos curtos e terrestres. Na segunda metade do século passado despontou, e cresceu, o turismo de longa distância com o transporte aéreo.
Diagnóstico e agentes sociais: quem move o futuro
O segundo é um bom diagnóstico do sistema definindo suas características marcantes, que constroem sua especificidade. Neste caso deve-se percorrer as diversas dimensões anteriormente relatadas, mas fazendo atenção especial às suas interações. Da mesma forma, identificando quais os/as agentes sociais mais influentes no longo prazo. O resultado esperado é um punhado de variáveis robustas e agentes sociais relevantes. Afinal, o futuro, como construção social, nasce por intermédio das decisões e ações de seus agentes, que agem em condições bem definidas. Ninguém faz ou fala qualquer coisa em qualquer lugar. Cada lugar define as percepções, valores, decisões e ações possíveis dos seus agentes. Há um século não se podia pensar uma pessoa conversar com outra todos os dias e várias vezes no dia, estando em lugares extremos do planeta.
Incertezas críticas: a matéria-prima dos cenários

Foto: Embratur Sebrae
O terceiro passo é definir quais as principais condicionantes de futuro e dentre estas quais as que constituem incertezas críticas (IC): variáveis de mais alta influência e menos previsibilidade. Elas serão a matéria-prima dos cenários, que seguem várias técnicas de construção e validação de coerência e plausibilidade.
Uma das mais comuns é a análise estrutural, em que se estuda o grau de conexão entre as variáveis mais relevantes, denominadas de condicionantes do futuro, pois este dependerá de suas trajetórias e cruzamentos. Ela resulta na extração dentre as condicionantes de futuro aquelas que são causais, ou IC. Segue a análise morfológica, em que as IC são submetidas a estados diferenciados e intercruzados, que combinados de forma lógica produzem esboços de cenários que serão, por sua vez, submetidos à matriz cenários/atores para identificar o grau de factibilidade e variância dos cenários. Afinal, eles devem ter algum grau de factibilidade e coerência, mas também, diversidade.
Do diagnóstico maranhense às variáveis do turismo 360
O ideal é ter ao final do trabalho um conjunto de dois a cinco cenários com variância entre si e certo grau de factibilidade. Seu número reduzido torna possível desenhar uma ou mais estratégias. Por vezes, é preferível extrair dos cenários um cenário robusto, que se compõe do que é comum a todos ou a maioria dos cenários. Assim, por exemplo, qualquer que seja o cenário do turismo no Maranhão ele terá um obstáculo, que pode ter força diferenciada em cada cenário, mas estará presente em todos, que é a infraestrutura de acesso aos destinos turísticos ou a gestão regional do turismo.
No caso do turismo do Maranhão as variáveis irão nascer do diagnóstico realizado. Apenas a título de exemplos: variáveis internacionais, como os eventos críticos extremos; variáveis nacionais como a dinâmica econômica do Brasil e seu impacto sobre a renda média de seus habitantes, que produz o volume potencial de turistas; variáveis locais, a capacidade do governo em descentralizar o turismo dos lençóis, criando alternativas atraentes ao seu redor e no resto do Estado.
O projeto Plano Estratégico de Turismo do Maranhão 2040 está sendo desenvolvido pela Turismo 360 em parceria com o Governo do Estado do Maranhão.
Saiba mais sobre o projeto:
Plano Estratégico de Turismo do Maranhão
Sobre o autor
Elimar Pinheiro do Nascimento é sociólogo, professor e pesquisador associado do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB). Doutor pela Universidade René Descartes (Paris V), é uma das principais referências brasileiras em desenvolvimento sustentável, planejamento estratégico e construção de cenários prospectivos, atuando há décadas na formulação de políticas públicas e projetos de desenvolvimento territorial.
