No momento em que a Turismo 360 Consultoria atua diretamente na estruturação do Plano Estadual de Turismo do Maranhão 2026-2040, em parceria com a Secretaria de Estado do Turismo (Setur-MA), vivenciamos em campo a potência de um território profundamente singular. O contato próximo com as múltiplas expressões culturais locais e o dinamismo de suas paisagens geográficas têm gerado valiosos aprendizados e insights técnicos sobre como as manifestações populares podem se consolidar como bases de sustentabilidade e inclusão para o turismo brasileiro.
Em todo o país, as festas populares combinam religiosidade, convívio social, gastronomia e musicalidade, moldando-se por meio de mascarados, caretas, reis, rainhas, caboclos, porta-estandartes e pastoras. Essas celebrações permitem a ocupação do espaço público com narrativas históricas, linguagens artísticas e tradições que se manifestam tanto em apresentações de grande porte quanto em festejos comunitários mais simples, intimistas e ritualísticos. Para o visitante, essa atmosfera oferece uma oportunidade incrível de compreensão da diversidade local.

Foto: Ruy Barros
As festas dão ao público a oportunidade de observar a dinâmica cotidiana, compreender as trajetórias das comunidades e vivenciar experiências originais e intensas. Ao partilhar sua fé, sua gastronomia e seus ritmos, as comunidades fortalecem a preservação de seu patrimônio imaterial e revelam que a potência do turismo dos nossos destinos vai muito além das paisagens desconcertantes que formam nossos biomas.
Uma das principais referências dessa integração entre cultura e território é o Bumba meu boi, manifestação que adquire dinâmicas específicas em diferentes estados brasileiros. No Maranhão, essa expressão popular, registrada desde o século XVIII, apresenta um arranjo cultural complexo que se estende muito além do período junino. O festejo estrutura-se a partir de uma encenação religiosa e satírica que articula influências indígenas, europeias e africanas, refletindo as matrizes de formação da identidade regional.
A força visual das indumentárias e bordados, a teatralidade dramática de seus personagens e o ritmo cíclico dos instrumentos configuram uma dinâmica de grande expressividade do boi maranhense. Os diferentes “sotaques” rítmicos, determinados pela instrumentação e cadência, como a matraca, a zabumba e a orquestra, organizam a diversidade de grupos locais. O som marcante dos pandeirões no Centro Histórico e nos bairros de São Luís cria um espaço de interação direta, onde o público acompanha a representação dramática entre o vaqueiro e o boi.

Foto: Ruy Barros
A cultura popular no planejamento turístico
Sob a ótica do desenvolvimento de destinos e da sustentabilidade, a originalidade da identidade cultural é o elemento que diferencia a oferta turística em um mercado cada vez mais homogêneo. O viajante contemporâneo prioriza experiências autênticas e singulares, associadas a dinâmicas comunitárias difíceis de ser reproduzidas fora de seu contexto de origem. Quando as políticas de turismo apoiam-se na salvaguarda da identidade local, a atividade deixa de ser estritamente contemplativa e passa a atuar como uma ferramenta de inclusão socioprodutiva e valorização humana.
Contudo, para que a produção criativa local consolide-se como um ativo econômico duradouro e gerador de desenvolvimento regional, o planejamento técnico e a articulação estratégica de longo prazo tornam-se indispensáveis. Cabe aos gestores públicos e privados estabelecer a preservação das manifestações tradicionais como pilares nas diretrizes de desenvolvimento do setor. Isso pressupõe investimentos em estruturação de infraestrutura de apoio, atração de investimentos ordenados, qualificação da cadeia produtiva e estratégias de posicionamento de mercado fundamentadas no respeito mútuo.
Essas ações de planejamento visam assegurar que os benefícios econômicos gerados pelo fluxo turístico retornem de maneira justa aos produtores locais. Esse retorno financeiro viabiliza a manutenção da cadeia de artesãos dedicados às indumentárias, músicos, brincantes e organizadores comunitários, garantindo a sustentabilidade intergeracional das tradições.
Sob a ótica do planejamento integrado do Maranhão, o período de pico dos festejos populares em junho e julho coincide com o momento de máxima capacidade hídrica das lagoas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses — recentemente reconhecido como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO. Essa simultaneidade representa uma oportunidade estratégica para os planejadores públicos.

Foto: Barbara Coletto
A estruturação de roteiros complementares que integrem a imersão cultural no polo de São Luís à visitação ambiental nos Lençóis Maranhenses possibilita o aumento da permanência média do turista no estado. Além disso, essa conectividade promove uma distribuição equilibrada dos gastos turísticos ao longo da cadeia produtiva regional, beneficiando comunidades tradicionais em diferentes polos e mitigando os efeitos da sazonalidade.
Acreditamos, assim, que o turismo estruturado a partir da identidade e focado no desenvolvimento humano converte a originalidade cultural em um legado não só de conservação, mas de renda e bem-estar local.
